Hoje começou a funcionar o acelerador de partículas lá na Suíça, né. Bom, o trambolho tem a minha idade e, no entanto, eu só fui saber dele às vésperas da inauguração. Ninguém me perguntou se eu queria aquilo no meu planeta– assim como não pediram minha opinião a respeito dos geradores nucleares, das garrafas PET, dos transgênicos, y otras cositas más, que foram criadas por grupos seletos de cientistas que “sabem muito bem o que estão fazendo, obrigado”, mas que afetam a minha vida e a sua, e a de muuuuuuuitas gerações futuras. Aposto como também não pediram o seu aval… Pois é. Mas nem era disso que eu ia falar. Nem sobre como eu acho insano aplicar tanto dinheiro, pesquisa, tempo de vida e esforço coletivo na tentativa de compreender algo sobre o qual não temos controle (a origem do universo!), ao invés de cuidar do que nos diz respeito mais imediatamente (erradicação da fome?, cura da AIDS?, do câncer?, saúde do planeta?!). Mas acabei falando, escapuliu…
Enfim, quero mesmo é tratar de algo muito mais sério do que tudo isso: o faniquito que a senhora minha mãe teve diante da perspectiva do fim do mundo– e suas implicações. haha
Acontece que ela ficou com medo de que o experimento criasse buracos negros que nos engulissem e, faltando duas horas para o possível apocalipse, entrou em parafuso e começou a pedir perdão (mentalmente) a todas as pessoas das quais guardava mágoa ou rancor; a uma prima minha em cuja vida tentou se meter, o que acabou nos afastando; a si mesma por não levar a vida que desejava. Prometeu reatar com a sobrinha… prometeu até fazer regime(!) caso a vida não acabasse.
O meu irmão não tava nem aí… ficou de cueca no quarto, jogando ping-pong contra a parede. Disse que, se o mundo não acabasse, tinha que estar craque pra vencer os japoneses lá da faculdade.
Fiquei acordada até muito tarde, esperando o Fim com a minha mãe (vai que o mundo acaba com a gente dormindo, credo, que medo). E no meio daquela neura eu também comecei a despirocar, a repensar a minha vida e as coisas que eu queria passar a limpo; a fazer juras de um futuro(?) melhor; e cogitei seriamente reunir a família para fazer uma declaração (todo mundo na sala, sentadinho, coisa de filme)… Como o tempo passou e o mundo não acabou (êêê!!!) fomos deitar sem medo de acordarmos mortas (imagina o susto O_o). Mas antes ela descumpriu de leve a promessa de fim-de-mundo (não tem de fim-de-ano? então!) batendo um pratão de comida às três da madruga.
De manhã, constatei feliz: “Mãe, a gente tá aqui!”.`
À tarde eu perguntei se ela ia voltar a falar com a minha prima, e ela disse: “Eu!?!” ¬¬
Aconteceu também de estarmos juntas na sala, eu a passar pelos canais da tv à procura de algo interessante, quando reconheci alguém na MTV: “Olhaaa, a Elisa!”. Bem… O que se seguiu foi uma reportagem com diversos jovens homossexuais, inclusive a Elisa, falando a respeito de casamento gay, demonstrações públicas de afeto entre pessoas de mesmo sexo e outras coisas que provocaram um silêncio terrível, uma cara muito séria, um constrangimento grande… (Mas também um certo alívio e a conclusão de que não se deve tomar decisões fiando-se na possibilidade de o mundo acabar e não ter que lidar com aquilo nunca mais).
Ainda bem que o mundo não acabou, não tive tempo de fazer as malas… hum.. e enquanto o acelerador de partículas “funcionava” eu estava tomando umas cervejas… não me perdoaria nunca se o mundo acabasse e eu não tivesse tomando caipirinha.. Princípios são princípios… hahaha
PS: O que? Você também está desrespeitando a cadeia alimentar? LAMENTÁVEL!
PS2: Eu e seu irmão devemos fazer parte dos mesmos movimentos em prol do bem-estar coletivo: “cenoura free”, “salvem os vegetais – comam carne” e “alfaces são amigas, não comida”. Por um mundo mais justo..hahaha