Às vezes acho que a insensibilidade é uma bênção. Porque muita coisa que eu vejo por aí me afeta profundamente, a ponto de me deixar doente.
Vou lembrar algumas coisas como quem revê um filme e , quem sabe, depois possa racionalizar e tirar algumas lições…
No começo da semana eu fiz a minha última aula de CFC (o cursinho teórico para formação de condutores). Era a aula de Primeiros Socorros. As outras cinco eu já tinha feito há meses, mas a de P.S. eu fiquei adiando, adiando, porque estava com medo mesmo. Porque passo mal até em aula de colégio sobre sistema circulatório. Mas como uma prima ia fazer, aproveitei pra fazer junto e, assim, terminar logo com isso. Bem…
Expliquei a situação, disse que se eu saísse no meio da aula não era por falta de interesse e blá blá blá e o professor, que era filho de bombeiro,super compreensivo e fofo, pegou leve no video e nos exemplos. Bom, né? Hm…
Mas tinha um cara com seus vinte e cinco anos, carequinha, marombadinho, machãozinho, superíntimo da minha prima (entenda: que mexe no cabelo, passa a mão no pescoço, morde braço(!?), agarra, promete que vai fazer e acontecer, cheio de piadinhas sexuais… tudo isso falando muitíssimo alto para chamar bastante a atenção de todo mundo).
Como o professor da sala ao lado faltara, estávamos dividindo o nosso com eles e, assim, ficávamos longos intervalos sem professor (enquanto ele dava aula na outra sala, a gente fazia alguma atividade em grupo. Foi num intervalo assim que desejei ser surda.)
O carinha, sei lá como ou porquê, começou a falar dos gays. Ou melhor: “dos viado” e das “mina que bate bife”(!?). Foi tanta estupidez, tanto desrespeito e baixaria que- juro- não tenho nem coragem de lembrar mais. O moleque tava fazendo curso de reciclagem porque quase matou uma pessoa quando dirigia bêbado(!). Outra coisa que ele contou pra todo mundo foi que ele fazia faculdade de Psicologia(!!!), mas largou porque a namorada queria mais atenção– e nesse ponto ele explicou que se tratava de uma “coroa” e que essas são melhores do que muitas menininhas por aí porque… Enfim, detalhes de sua vida sexual– e que depois largou também o emprego para poder ficar mais ainda com ela. E lamentou o fato de ter se ferrado tanto por causa dela(?) e porque, ainda por cima, os pais não quiseram mais pagar a faculdade dele(!!!).
Visualizou bem, né? Construiu a personagem na cabeça?
Uma outra coisa que eu escutei foi algo do tipo “se fosse eu, atropelava essas bicha”.
Putz. Eu não sou tão inocente e encantada diante do mundo, eu sei que existe gente muito escrota. Só não sabia que existia tantas por metro quadrado. É que a galera, em peso, fez coro com ele e ficaram lá falando em “que nojo”, “ridículo”, “como pode?”… A minha prima não podia contestar o gato, né? Nem ao menos ficar quietinha. Resolveu falar que era um desperdício tanto homem bonito ser viado e “ai, que ódio”…
Olha, passei mal aquele dia. Nem foi por causa de sangue; foi por causa da homofobia.
O professor voltou, e a essas alturas o figurão já sabia que eu não agüentava muito ficar ouvindo falar em acidentes e tal. Adivinhe se ele não fez um milhão de perguntas ilustradas com exemplos cheios de sangue e tripas voadoras! Só pra me fazer passar mal. Aham. O cara nem me conhecia, mal fomos apresentados. Dá pra entender? Até o professor sacou a intenção e ficou sem saber muito bem como agir. De fato a minha pressão caiu e eu fui pra forar tomar uma água. E, por alguma razão que eu não quero conhecer, isso foi motivo de diversão para alguém…
No final teve uns testes bem sossegados pra gente fazer que eram corrigidos na hora mesmo. Terminei logo e, tendo acertado 100%, ouvi uns deboches pelas costas.
Beleza. Pelo menos tinha terminado, né? Não. Esses caras cretinos que se acham os fodões, em pleno direito de pegar na gente (e tem muita menina que permite e acha lindo) parecem ficar desconcertados com garotas que impõem limites. Isso explica as tentativas de me ferir, acho. Lá fora ainda escutei “É… Ela tira cem por cento na prova escrita, mas quando pegar no carro pra dirigir vai bater no primeiro poste!”. Eu podia ter dito “Tudo bem! É só eu fazer um curso de reciclagem depois…” , mas na hora eu não pensei nisso.
Enfim, o dia não era dos melhores, e como merda pouca é bobagem, aconteceu de mexerem quando eu passava com a minha prima na rua. Era um comerciante que já mexera comigo outras vezes quando eu voltava pra casa. Pelo o que entendi, ele fica o dia inteiro em frente à loja falando coisas enquanto as mulheres passam. Então já fazia tempo que isso me incomodava mas, pra uma garota magricela que nem eu, escutar porcarias de boca fechada é mais do que um exercício de zen-budismo: é questão de manter a integridade física.
Só que o tiozinho me pegou num dia ruim, sabe, e não hesitei:
“O que você disse?!”
Ele ficou desarmado, falou umas coisas desconexas. Eu repeti: ” O que você disse?!”. O idiota nem sabia o que responder, o famoso ‘mimimi’. “Você quer ir ali na delegacia repetir?!”. Ele olhou pro outro lado e ficou “Eu não falei nada, não falei nada…”
Saí louca da vida, xingando, e a minha prima toda horrorizada comigo, me mandando ficar calma. Super normal e até mesmo desejável que os homens fiquem falando que querem te comer e coisas do tipo, né? É um bom sinal. Significa reconhecimento, no idioma de alguém– que não é o meu.