Um dia feio

… até o tempo fechou de repente, e hoje fez frio e ficou cinza bem no meio do verão…

 Passei os últimos dias numa busca alucinada por alegria (não felicidade) e esperança, comendo todos os doces que passaram pela frente e rindo até quando não devia pra que um espírito perdedor, frustrado e assassino não possuísse esse corpo  já na tpm. Até que funcionou, eu segurei bem o fato de que não entraria na UNIFESP nem se todos os aprovados desistissem e metade dos convocados por segunda chamada morressem; segurei como pude não estar na lista da FUVEST também, e mantive a esperança de que meu nome poderia aparecer na segunda lista (hoje). Bem, não apareceu…  e eu vos apresento meu encosto (“prazer”), essa entidade bizonha que agora me acompanha.

Mas por que eu ficaria em casa triste e pensativa se lá fora há um mundo de possibilidades e hoje é sexta-feira? Treze, he he he.

Tomei banho, me vesti e até maquiei (dentro do meu código de conduta, esse gesto incomum significa um esforço para disfarçar um estado de espírito, não apenas a acne e olheiras e manchas), e saí. Pra quê? Para ser medida de cima a baixo por um homem bizarro,  no meio de outros dois ou três machos e uma fêmea da mesma espécie, de garrafa na mão e que, de repente,quando eu já estava meio longe… chamou minha mãe de sogra e disse outras coisas aí. (Veja bem: nós estávamos em frente à delegacia perto de casa,  o mesmo lugar onde eu já tive que escutar porquices umas três ou quatro vezes. Sentiu o drama?)   De onde estava, eu apenas virei pra trás, olhei bem na cara dele e cocei o nariz com o dedo do meio. Normal, certo? Momento em que ele aprende o valor do silêncio e estamos quites, certo? Parece que não… porque ele ficou mei bravo, sabe. Começou a gritar umas coisas lá, e os amigos dele também, enquanto a amiga gargalhava. Continuei andando devagar ao lado da minha mãe, sempre coçando a nuca… Aos poucos, com a distância, não pude mais ouvir suas sutilezas, e foi então que comecei a ouvir um sermão interminável de uma mãe em choque, pálida, trêmula. “E agora?! Como vai ficar o meu coração quando você sair de casa?”, “Mais um lugar onde você não pode passar, por que você fez isso?”, “Você não tem juízo! Então quer dizer que se alguém te xingar no trânsito, você simplesmente vai descer e discutir?”, “Eles vão lembrar de você, e se quiserem se vingar?”.

O coração dela não vai ter muita ocasião de doer porque eu vivo mais trancada nesse apartamento do que qualquer outra coisa, e não costumo voltar tarde nas poucas vezes que saio; eu não vou deixar de passar na frente daquele prédio porque nem tem alternativa mesmo; se o xingamento no trânsito for um insulto misógino… Ah, é claro que eu não desceria do carro, mas sim xingaria de volta, né?

O sermão foi gigante, e terminou com uma história de quando ela tinha minha idade e ia pra igreja com duas colegas… no caminho, um grupo de rapazes mexeu com uma delas, que respondeu que ele era um “bola murcha” (não ria! Substitua por outro xingamento, mais atual!) Os caras (um deles era filho de um “pastor” da rua, não que isso tenha um significado particular, é mais a título de curiosidade) correram atrás delas durante um tempão. Elas conseguiram escapar ilesas, mas quando chegaram em casa justificaram a falta de fôlego e a corrida com o mau tempo que fazia, uma tempestade chegando… Daí eu perguntei: “em quantos eles eram?” Ela: ”quatro”.  “Então vocês podiam ter ficado e enfrentado, dava pra brigar com eles…”   

Fiquei com dó, minha mãe parecia desesperada, mas continuei:

    -…E quando o tio perguntou o que tinha acontecido, vocês ainda mentiram- afinal a culpa devia ser de vocês, que ‘responderam a provocação’.

   -Não!… eu menti porque do jeito que seu tio é, ele provavelmente…”      

Interrompi:   -…ele  provavelmente ia dar um tiro no meio da testa de cada um. Eu ia achar lindo [expressão psicótica mode on]

A história não surtiu o efeito esperado, e acabei assustando minha mãe… Eu não sou tão louca quanto fiz parecer, sinto muito se peguei pesado, mas o dia estava sendo difícil e eu não entendia porque ela estava tão brava comigo. Brava não, “assustada” ela disse. No final das contas, é claro que eu entendo a preocupação dela, eu tenho noção de perigo e sei que terei de andar com os óculos e bons tênis daqui pra frente. O que eles vão querer fazer se me encontrarem por aí, isso eu não quero descobrir nunca… mas se quiserem me atacar, tenho certeza de que o fariam de qualquer jeito- ninguém resolve atacar uma mulher porque ela mostrou o dedo do meio, certo? Quer dizer… abaixar a cabeça não faz um agressor desistir da agressão… Ou será que eu despertei um lado assassino naqueles gentis rapazes?!  Minha culpa, né?

Minha mãe tem medo. Eu também tenho. Mas eu não preciso aprender a ficar quieta; preciso aprender é kung fu… ou wendo…

Publicado em: on Fevereiro 14, 2009 at 1:55 am Comentários Desligados
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Uma História de Natal

Eu comprei mais ou menos meio quilo de uma pimenta que nem nome tinha ( tava escrito “pimenta ardida” nas bandejinhas), pra fazer geléia. O “prano, Gráubi,” era fazer caixinhas com biscoitos e geléia para dar de presente nesse Natal.  hehe.

A receita era do Zeca Baleiro e eu peguei numa revista Bons Fluidos, onde ele dizia ser recomendável o uso de luvas para não machucar as mãos. “Recomendável” , né? Não gosto mais de você, Zeca.

Não quis parar enquanto não terminasse de abrir e limpar todas as pimentas, mesmo com as mãos vermelhas e queimando, afinal, pensei: “é claro que está ardendo, é pimenta!…daqui a pouquinho eu lavo e passa.”

Terminei e fui correndo lavar. Muito. Mas não passou…Taquei leite; vinagre…

 Minhas mãos pareciam dois bifes crus com dedinhos.

Existe uma pimenta chamada dedo-de-moça (e acho que foi dessa mesmo que eu comprei sem saber),  e eu entendi num momento intenso a origem desse nome… Dedo de moça. Eu tinha dez pimentas onde antes havia dez dedinhos, e estava cada vez pior…

Desesperada, procurei sobre queimaduras de pimenta no google e -hahahaha- encontrei um blog de uma infeliz contando como foi que arranjou queimaduras tentando fazer geléia, e corri pra farmácia pra comprar a pomada que ela disse ter usado. Depois de descobrir que “nem se fabrica mais Paraqueimol, filha”  e ser supermal atendida, voltei correndo pra casa com uma tal de Sensiderme.

Gente, eu passei a pomada e parece que piorou… Não me lembro de ter sentido tanta dor e desespero desde a vez em que caí de testa no chão de ardósia, quando era criança, jogando bola (por isso não gosto de futebol!? hum… acabei de resolver um trauma!).

Eu estava sozinha em casa, abanando as mãos, chorando, rezando, dando bicas nos móveis… até que, num ato desesperado, enfiei a mão no congelador e  TSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSS…  Foi como apagar o fogo. Mas tinha que deixar no gelo– quando eu tirava, voltava a queimar!!!

Eu fiquei com as mãos enfiadas em água gelada até umas onze e pouco da noite (a aventura tinha começado lá pelas duas da tarde), quando meu irmão me colocou pânico falando em queimadura química e etc, e eu concordei em pegarmos o carro de uma prima pra ir ao hospital (ah, teve mais essa: nosso carro estava sem bateria, então eu não podia deixar pra ir ao médico mais tarde, porque aí não teria mais metrô  e nem ia dar pra ligar pra niguém pedindo um carro depois da meia-noite).

Fui parar no Pronto-Socorro na antevéspera de Natal, agarrada a uma latinha de refrigerante gelada,  e o médico não se conformava: “mas você deve ter cortado MUITA pimenta”. Ele disse que eu tinha mesmo que passar aquela pomada e ESPERAR, sem colocar as mãos no gelo. “Eu sei que é frustrante, mas é isso mesmo.”  Frustrante? É doloroso bagarai, isso sim! Imagina botar as mãos em cima de uma vela acesa e, quando começar a queimar, não poder nem assoprar… No fim ele receitou também “CORAGEM!, e fique longe da pimenta…”

Voltando pra casa, no carro, eu colocava as mãos na janela e o vento aliviava muito, mas (ai!, sempre tem um “mas”) pegamos trânsito e vários faróis fechados. O meu irmão disse que foi o presente de Natal dele me ver toda alucinada, procurando qualquer coisa fria pra segurar, pegando nas laterais do carro, assoprando, dançando a Ragatanga…

Só sei que fiquei na sala com as mãos emplastradas de pomada, sentada na beira da janela com os braços pra fora, de madrugada…

Gente…  Me diz que eu tô perdoada por não ter dado presente?

Publicado em: on Dezembro 25, 2008 at 10:40 am Comentários (4)
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