Uma História de Natal

Eu comprei mais ou menos meio quilo de uma pimenta que nem nome tinha ( tava escrito “pimenta ardida” nas bandejinhas), pra fazer geléia. O “prano, Gráubi,” era fazer caixinhas com biscoitos e geléia para dar de presente nesse Natal.  hehe.

A receita era do Zeca Baleiro e eu peguei numa revista Bons Fluidos, onde ele dizia ser recomendável o uso de luvas para não machucar as mãos. “Recomendável” , né? Não gosto mais de você, Zeca.

Não quis parar enquanto não terminasse de abrir e limpar todas as pimentas, mesmo com as mãos vermelhas e queimando, afinal, pensei: “é claro que está ardendo, é pimenta!…daqui a pouquinho eu lavo e passa.”

Terminei e fui correndo lavar. Muito. Mas não passou…Taquei leite; vinagre…

 Minhas mãos pareciam dois bifes crus com dedinhos.

Existe uma pimenta chamada dedo-de-moça (e acho que foi dessa mesmo que eu comprei sem saber),  e eu entendi num momento intenso a origem desse nome… Dedo de moça. Eu tinha dez pimentas onde antes havia dez dedinhos, e estava cada vez pior…

Desesperada, procurei sobre queimaduras de pimenta no google e -hahahaha- encontrei um blog de uma infeliz contando como foi que arranjou queimaduras tentando fazer geléia, e corri pra farmácia pra comprar a pomada que ela disse ter usado. Depois de descobrir que “nem se fabrica mais Paraqueimol, filha”  e ser supermal atendida, voltei correndo pra casa com uma tal de Sensiderme.

Gente, eu passei a pomada e parece que piorou… Não me lembro de ter sentido tanta dor e desespero desde a vez em que caí de testa no chão de ardósia, quando era criança, jogando bola (por isso não gosto de futebol!? hum… acabei de resolver um trauma!).

Eu estava sozinha em casa, abanando as mãos, chorando, rezando, dando bicas nos móveis… até que, num ato desesperado, enfiei a mão no congelador e  TSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSS…  Foi como apagar o fogo. Mas tinha que deixar no gelo– quando eu tirava, voltava a queimar!!!

Eu fiquei com as mãos enfiadas em água gelada até umas onze e pouco da noite (a aventura tinha começado lá pelas duas da tarde), quando meu irmão me colocou pânico falando em queimadura química e etc, e eu concordei em pegarmos o carro de uma prima pra ir ao hospital (ah, teve mais essa: nosso carro estava sem bateria, então eu não podia deixar pra ir ao médico mais tarde, porque aí não teria mais metrô  e nem ia dar pra ligar pra niguém pedindo um carro depois da meia-noite).

Fui parar no Pronto-Socorro na antevéspera de Natal, agarrada a uma latinha de refrigerante gelada,  e o médico não se conformava: “mas você deve ter cortado MUITA pimenta”. Ele disse que eu tinha mesmo que passar aquela pomada e ESPERAR, sem colocar as mãos no gelo. “Eu sei que é frustrante, mas é isso mesmo.”  Frustrante? É doloroso bagarai, isso sim! Imagina botar as mãos em cima de uma vela acesa e, quando começar a queimar, não poder nem assoprar… No fim ele receitou também “CORAGEM!, e fique longe da pimenta…”

Voltando pra casa, no carro, eu colocava as mãos na janela e o vento aliviava muito, mas (ai!, sempre tem um “mas”) pegamos trânsito e vários faróis fechados. O meu irmão disse que foi o presente de Natal dele me ver toda alucinada, procurando qualquer coisa fria pra segurar, pegando nas laterais do carro, assoprando, dançando a Ragatanga…

Só sei que fiquei na sala com as mãos emplastradas de pomada, sentada na beira da janela com os braços pra fora, de madrugada…

Gente…  Me diz que eu tô perdoada por não ter dado presente?

Publicado em: on Dezembro 25, 2008 at 10:40 am Comentários (4)
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